Educar para a Liberdade

A Educação promove a Liberdade?

Imbuída neste espírito de início de ano letivo, ocorre-me refletir sobre esta temática que tanto me deu que pensar há uns meses… qualquer dia conto porquê 😉. Permitam-me, no entanto, e antes de me entregar a considerações mais ou menos profundas, que vos esclareça que estou consciente da GIGANTE diversidade no que se refere ao conceito de Educação e que os progressos relativamente ao consenso neste domínio são diminutos. Ainda assim, e tomando como referência a frase “Educar é moralizar” ouso afirmar que a Educação é um processo de formação e desenvolvimento da personalidade do indivíduo munindo-o de “ferramentas” (valores, padrões de comportamento, regras) que serão sua referência enquanto parte de um todo (comunidade/sociedade), de forma a que este consiga promover mudanças (materiais/sociais/espirituais) impostas pela dinâmica da sociedade consciente do “conjunto de regras adquiridas através da cultura, tradição e quotidiano” (moral), espelhando assim o domínio das normas de conduta socialmente aceites.  

Assumindo a educação como um dos fatores determinantes no desenvolvimento do indivíduo e da sociedade, pressupõem-se (e espera-se) que consequentemente contribua também para uma sociedade assente em valores de justiça, promotora do bem-estar social. Penso que a potencialidade das ações educativas implementadas com intuito de melhorar as condições de pessoas vulneráveis, qualquer que seja o motivo dessa fragilidade, é tanto maior quanto mais consciência os seus agentes tiverem da dinâmica existente entre o desenvolvimento humano e o meio onde se inserem, bem como da relação bilateral (pois influenciam-se mutuamente). Isto leva-me a afirmar que é determinante o envolvimento profundo na e da comunidade, envolvimento esse que será positivamente impactante na mudança social que se pretende desenvolver. Destaco esta necessidade porque acredito que o desenvolvimento individual/social está intimamente ligado ao desejo de afirmação/autonomia pessoal bem como à necessidade da relação de proximidade com e aos outros, pelo que as dinâmicas de interação que se vão criando, para além da resolução da necessidade específica em que ação incide, acabam muitas vezes por gerar nos indivíduos sentimento de pertença (ao grupo, ao projeto, etc), desenvolvimento da boa auto-estima, consciência e entendimento de si e do outro o que também se reflete no aumento do respeito, desenvolvimento de sentido crítico… ora, isto só pode acontecer se fizer sentido para as pessoas, nas suas vidas, na sua realidade!

Agora, o significado da palavra Liberdade! Partindo do entendimento que neste vocábulo “cabe”, sem prejuízo de outrem, a independência, a espontaneidade e o direito a proceder segundo o meu livre arbítrio de acordo com a minha vontade, e, considerando o meu contexto específico, aquele a que tive contacto/acesso ao longo dos anos, quer como estudante quer enquanto formadora, não penso que o nosso sistema de ensino promova a liberdade no seu sentido mais amplo, já que, o que experienciei não evidência de forma alguma o direito a opinião discordante, direito esse que é um dos fundamentais numa sociedade que se afirma livre. Consciente que a questão foi colocada ao contrário “A Educação promove a Liberdade?”, não posso avançar nesta reflexão sem inverter um pouco o assunto pois considero importante desenvolver esta temática com a noção clara que a Liberdade na Educação, ou a falta dela, não contribui que que se usufrua plenamente do que é suposto ser a Educação.

A título de exemplo julgo pertinente falar sobre o sistema de avaliação das aprendizagens implementado que valoriza objetivamente quem “decora” em detrimento de quem não o faz, tentando em vez disso, perceber a matéria. Este paradigma cria um constrangimento ao sentido crítico, ao entendimento diferenciado das matérias, à sensibilidade individual, desvalorizando claramente os saberes adquiridos em contextos diferentes, reduzindo por isso a liberdade cognitiva de cada aluno.  Poderemos falar de Liberdade na Educação quando a questão económica também se coloca: quando os pais não podem integrar os seus filhos na escola que mais se adequa às suas necessidades por motivos de ordem financeira? E existe Liberdade quando a necessidade de cumprir os objetivos estipulados nos programas que se sobrepõe ao desenvolvimento e enraizamento dos valores que acredito serem fundamentais a qualquer ser humano livre: justiça, civismo, cortesia, integridade, honestidade, entre tantos outros…?

Paulo Freire dedicou muito do seu trabalho em torno da Educação enquanto prática da Liberdade, na medida da primeira possibilitar condições de autoconhecimento, capacidade crítica, criatividade, participação e construção da identidade do indivíduo de forma a alcançar a segunda. Não me parece que o sistema educativo que conhecemos entronque nesta visão, não porque quem de direito não tenha essa consciência, mas porque não sente essa responsabilidade. Não é invulgar ouvir dizer da boca de professores frases como “Nós não temos de educar os garotos.” ou “Os pais não os educam e acham que nós é que temo essa responsabilidade.”, ou ainda “Nós estamos aqui para ensinar e não os educar”. Ora, se os próprios professores se afastam desta responsabilidade, como podem promover o desenvolvimento dos seus educandos enquanto cidadãos? Para além da reconversão dos sistemas de ensino, penso que é urgente trabalhar junto da comunidade docente, formar/sensibilizar estes profissionais para a real dimensão da importância que têm na formação de cada um dos seus alunos e consequentemente da sociedade, encaminhando-a no sentido da democracia.

A massificação do ensino criou nas instituições escolares uma necessidade de uniformização/padronização da prática pedagógica. Tanta coisa mudou ao longo dos tempos. Considerando a velocidade da evolução (nem sempre positiva) nos mais diversos domínios, económicos, políticos e sociais, e sabendo que o indivíduo em desenvolvimento interage intimamente com todos os sistemas que compõem a “sua realidade” e que também estes se encontram em constante transformação,  percebe-se que os agentes de ação social têm inúmeros fatores a considerar, e certamente desafios diferentes em todos os projetos a desenvolver. Um grande desafio é estruturar e implementar um novo paradigma educacional, que, a partir de uma reflexão individual e coletiva e assente numa lógica de partilha, enriquecimento e desenvolvimento mútuo, propicie a liberdade e autonomia das escolas e potencie a capacitação das pessoas que aí trabalham, envolvendo também na Educação toda a comunidade não escolar, de forma a construir uma escola com identidade, multicultural, inclusiva, inteligente, flexível, marcada pela equidade e capaz de se adaptar aos mais diversos contextos, e isto só é possível se todos os “agentes” envolvidos (todos nós) o quiserem e permitirem. O meio envolvente a uma instituição é um espaço físico e social que oferece muitas possibilidades para que se desenvolvam atividades, sendo por isso um “laboratório”, um campo alargado de espaço potenciador da natural construção das aprendizagens, pois por existir ligação emocional, para o aluno fará sentido o processo.

Penso que um desafio de base se prende com a necessidade de se entender a dimensão do conceito Educação e a responsabilidade de todos no processo educacional em detrimento da ideia de que se trata de uma competência de quem trabalha nas escolas. Daqui obtenho dois desafios:

  • a capacitação das pessoas que trabalham nas escolas (pessoal docente e não docente) no intuito de os munir de ferramentas que lhes permitam ser pró-ativos na interação com os alunos/pais/comunidade, na abordagem dos currículos, de forma que consigam desconstruir a uniformidade dos caminhos dos alunos favorecendo a sua diferenciação;
  • o envolvimento de toda a comunidade não escolar, de forma a construir uma escola com identidade, multicultural, inclusiva, inteligente, flexível, marcada pela equidade e capaz de se adaptar aos mais diversos contextos, e isto só é possível se todos os “agentes” envolvidos (todos nós) o quiserem e permitirem.

Do ponto de vista dos saberes – saber ser, estar e fazer – acredito que sim, a Educação poderá promover a Liberdade, porque dota as pessoas de ferramentas de ação que possibilitam a autonomia do indivíduo. Estas competências, sejam elas técnicas, pessoais, ou sociais, adotam fulcral e determinante importância na estruturação do sujeito enquanto ser socialmente ativo, culturalmente íntegro, crítico e responsável, por um lado abrindo-lhe o leque de opções e por outro tornando-o mais capaz de contribuir na construção de uma sociedade livre.

Hoje não falei de sapatos, nem de vestidos bonitos ou da maquilhagem perfeita. Falei sim de algo que acredito ser basilar na estruturação do nosso (melhor) eu, e que por isso mesmo deveria estar sempre na moda: Educação e Liberdade!

Estou à vossa disposição caso pretendam discutir este assunto. Já sabem que podem encontrar-me lá no Instagram pinkrock.blog 😉

Xoxo

2 comments

    • Suzana, permita-me que seja eu a agradecer-lhe: pelo facto de estar aí, também pelo tempo despendido na leitura do texto e certamente “por se ter dado ao trabalho” de comentar. Já me fez ganhar o dia!! Fico extremamente feliz que este assunto faça sentido para alguém, pois acredito que todos nós fazemos a diferença neste processo de Educar para a Liberdade: não é só responsabilidade dos outros… é “coisa” nossa, dentro e fora das escolas. Beijinhos com carinho e até breve Suzana!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *